O sucesso de “O Diabo Veste Prada 2 nos cinemas mostra a força da moda como fenômeno social que gera engajamento e dita tendências. Inspiração para Miranda Priestly, personagem de Meryl Streep no filme, a ex-editora da Vogue Anna Wintour agora comanda o evento Met Gala, em Nova York, onde o cantor Bad Bunny e a apresentadora Heidi Klum surpreenderam com brilhantes caracterizações criadas pelo maquiador Mike Marino.
A moda reflete as mudanças culturais e sociais de sua época e, como o cinema, conta histórias através de imagens, podendo até influenciar comportamentos. Também influenciado pela indústria cultural (e parte dela), o cinema é o meio de linguagem perfeito para deixar registrado para a posteridade a evolução da moda e o trabalho de estilistas famosos (ou não).
A partir do final do século 20, os figurinos dos personagens nas telas e o estilo de vida das estrelas passaram a influenciar milhões de pessoas em todo o mundo. Durante a Era de Ouro de Hollywood, entre o final dos anos 1920 e a década de 1960, astros e estrelas estavam na vanguarda da moda, criando tendências ou quebrando tabus – como Greta Garbo, com seu estilo ousado para os anos 20 e 30. A atriz foi pioneira ao trazer calças compridas para a moda feminina e por usar trajes até então considerados exclusivamente masculinos.

Por isso, a relação da indústria da moda com o cinema é antiga, com a primeira percebendo a força de um filme para influencia a cultura vigente e padrões de consumo. Desde o século passado, premiações da indústria cultural, como o Emmy, o Globo de Ouro, o Oscar e festivais (Cannes, Veneza etc), se tornaram palco para atores e celebridades desfilarem looks de estilistas famosos no tapete vermelho.
E ocorre também o inverso, com o cinema e outras formas de arte adentrando o mundo fashion, como ocorreu recentemente no Met Gala, evento beneficente do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. No dia 4 deste mês foi realizada a edição anual do evento, criado em 1948 para levantar recursos para o Costume Institute, o famoso departamento de moda do museu.
O tema deste ano (e dress code dos convidados) foi “Fashion Art” (“Moda é Arte”, em português), propondo o cruzamento entre peças icônicas de moda com esculturas, pinturas e outras obras históricas do acervo do Metropolitan. Entre as celebridades que desfilaram na festa, estiveram Beyoncé, Charli XCX Gwendoline Christie, Katy Perry, Nicole Kidman, Sabrina Carpenter, Sarah Paulson e Sam Smith. Cada uma com o look mais extravagante que a outra.
Mas ninguém chamou mais atenção no tapete vermelho do que Bad Bunny e Heidi Klum. O cantor porto-riquenho, que arrasou se apresentando no show de intervalo do último Super Bowl (em fevereiro), apareceu usando bengala e com a aparência envelhecida, em referência a uma das seções da exposição “Costume Art” – “O Corpo Envelhecido” –, cuja proposta é a moda como fio condutor de outras formas de arte.


Já a modelo e apresentadora do reality show “Project Runway” foi ainda mais fundo, transformada em uma estátua viva inspirada na escultura “Virgem Velada”, do italiano Raffaelle Monti. Desde 2011, Klum tem ganhado fama na internet graças às suas caracterizações de Halloween, que vão de uma minhoca gigante à Medusa.
É justamente no Met Gala que a magia de um profissional da maquiagem entra em ação, demonstrando como a caracterização é um trabalho completo que reúne o look/figurino, o cabelo e a make. Tanto Klum quanto Bunny foram preparados por Mike Marino, um gênio da maquiagem protética três vezes indicado ao Oscar – uma delas pela incrível transformação do ator Colin Farrell no vilão Pinguim (Oz Cobb) no filme “Batman” (2022). Confira nosso especial sobre o maquiador aqui.
A partir de fotografias de porto-riquenhos octogenários e de estudo da estrutura facial de Bunny, Marino criou próteses para as bochechas, bolsa sob os olhos, pescoço e testa do cantor, além de suas mãos e orelhas. A partir do escaneamento 3D da cabeça e face, o maquiador desenvolveu um modelo em tamanho real, onde aplicou diferentes camadas de silicone que serviram de próteses para cada parte do rosto do cantor que foi alterada. Para a barba, bigode e cabelo, Marino contou com a ajuda da peruqueira Diana Choi e da cabeleireira Carla Farmer. Ao todo, foram 3 horas de aplicação e mais meia hora para tirar a maquiagem.



Klum enfrentou processo mais exaustivo, de cinco horas de preparação para o evento. A fim de criar o efeito de mármore esculpido, Marino utilizou látex e elastano manipulados para dar à artista a aparência de escultura clássica. Tudo começou com o escaneamento do corpo inteiro da apresentadora e, com essa base, Marino e equipe esculpiram o design com todas as dobras e o tecido. Durante a preparação, Klum teve que ser alimentada por outra pessoa para não comprometer a pintura das suas mãos.
Outra conexão do Met Gala com o cinema tem a ver com “O Diabo Veste Prada”. Novo clássico moderno dos fashionistas e amantes da moda, o filme é uma adaptação do livro de Lauren Weisberger, que foi escrito a partir das experiências da autora como assistente de… Anna Wintour. Ex-diretora da revista Vogue americana, ela serviu de modelo para a Miranda Priestly de Meryl Streep e desde 1999 atua como consultora e curadora do Met Gala.
“O Diabo Veste Prada” ajudou a aumentar a lenda em torno de Wintour da Vogue que, hoje, ajuda a impulsionar um dos eventos que mais reúne artistas e celebridades em Nova York. Graças ao filme, Wintour virou ícone pop e referência de mulher temida em cargo de comando. É o cinema expandindo as fronteiras da moda, e a moda exercendo seu inegável fascínio sobre o público.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



