Elordi concorre ao Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante por sua impressionante atuação na nova versão do clássico de Mary Shelley dirigida por Guillermo del Toro. O filme é um dos mais assistidos da Netflix e confirma o talento do cineasta mexicano para criar universos fantásticos e encantar o público.
Em “Frankenstein”, del Toro demonstra toda a sua compaixão (e fascinação) por seres fora do comum, como já havia feito, por exemplo, com as criaturas de “O Labirinto do Fauno” (2006) e o homem-anfíbio de “A Forma da Água” (2017), filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Direção.
O projeto é um sonho antigo do cineasta, que consegue dar cara nova ao clássico da literatura gótica, lançado pela primeira vez em 1818 e já adaptado várias vezes para o cinema, sendo a versão de 1931 a mais icônica, com Boris Karloff no papel da criatura. O título Frankenstein, tanto no filme quanto no livro de Shelley, remete ao cientista Victor Frankenstein, e não à sua criação, como muitos confundem ao longo de tantas adaptações nas telas.

Oscar Isaac interpreta Victor como um sujeito cruel e egocêntrico que vai se arrepender do novo ser que criou – chamado apenas por termos pejorativos como Criatura ou Monstro – interpretado com sensibilidade por Elordi, jovem ator australiano em alta em Hollywood, depois de papeis na série “Euphoria” (2019-2022), “Priscilla” (2023) e “Saltburn” (2023).
À semelhança de seus outros trabalhos, del Toro alterna momentos de brutalidade com ternura, como na aproximação entre a Criatura e Elizabeth Harlander, noiva do irmão de Victor que é vivida na trama por Mia Goth (de “Pearl”).
Depois de introduzir os protagonistas, num violento embate na região polar do Ártico, em 1857, e de Victor narrar para o comandante de um navio a sua versão dos fatos, o roteiro escrito por del Toro inova no segundo ato, assumindo o ponto de vista da Criatura.
O filme lhe dá voz e a humaniza como nunca antes, dando espaço para Jacob Elordi brilhar com um elaborado trabalho de expressão corporal que replica a inocência e empolgação das primeiras descobertas da infância. Para a movimentação da Criatura, o ator de 28 anos se inspirou no Butô – estilo de dança performática japonesa – e na linguagem corporal do próprio cachorro.
Mas essa transformação não seria possível sem o brilhante trabalho de maquiagem protética de Mike Hill @mikehill_creations, que já havia colaborado com del Toro em “A Forma da Água” e deve receber sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo.




Além de Hill, a equipe contou com Jordan Samuel @makeupjordan (chefe do departamento de maquiagem – makeup department head), Cliona Furey @clionafurey (chefe do departamento de cabelo – hair department head) e Stacey Butterworth @staceywigs (peruqueira), entre outros talentos.
Stacey, por exemplo, criou as perucas usadas por Mia Goth em dois papeis. Além de Elizabeth, a atriz aparece bem diferente no papel de Claire Frankenstein, a mãe de Victor que aparece no início do filme em flashbacks. Coube a Hill a criação de próteses que modificaram a testa e o nariz de Goth, acentuando a semelhança da personagem com seu filho, na vida adulta encarnado por Isaac.





Ilustrações anatômicas do século XVIII foram o ponto de partida para Hill no design da Criatura que, nas palavras do artista protético, não podia parecer com o monstro das antigas versões do cinema. Ou com um zumbi ou algo do gênero – tinha que ser única e não afastar o público, já que Frankenstein queria criar um novo homem, não um monstro.
Dentro desse conceito, da Criatura montada a partir dos restos mortais de outras pessoas, Hill e sua equipe desenvolveram 42 peças protéticas – cada uma moldada a mão –, sendo 14 delas apenas para a cabeça e o pescoço de Elordi. As únicas partes dele que não foram cobertas: a ponta do nariz, o lábio superior e o queixo.
O processo de maquiagem começava depois da meia-noite para que o ator estivesse pronto na manhã seguinte, já que a aplicação levava entre 10 e 11 horas por dia, com a ajuda de mais quatro membros da equipe de Cabelo e Maquiagem.
Hill desenhava as cicatrizes diretamente nas próteses fixadas no rosto de Elordi, a fim de não tirar sua expressividade. Segundo o mestre protético, traços da fisionomia do ator, como sua linha maxilar e os olhos proeminentes, foram de extrema importância e são o sonho de qualquer maquiador.


NOTA DA MIRELLA: Pensa em dedicação e entrega de um ator – o Jacob Elordi ficava só 10 (DEZ) horas na aplicação da maquiagem e do cabelo antes de ir direto pro set gravar suas cenas! Fora as horas necessárias pra remoção depois… e, detalhe, segundo Mike Hill, o ator não reclamou disso uma única vez! E, esperto, aproveitava o tempo para decorar e estudar o roteiro.


Não foi o primeiro contato de Hill com Frankenstein. Antes do filme agora na Netflix, ele já havia esculpido, a pedido de Del Toro, o monstro de Boris Karloff do “Frankenstein” de 1931, em tamanho real, para o acervo pessoal do diretor.
Agora, Hill ajuda a realizar o sonho de Del Toro, que vai além da história de horror gótico, contando em escala épica a tragédia de um ser incomum que quer apenas existir mas é rejeitado pela sociedade. O filme humaniza um dos personagens mais estigmatizados do cinema de horror clássico, mostrando que é o homem quem pode se tornar o verdadeiro monstro da história.
A nova Criatura de “Frankenstein” é resultado da união mágica entre a equipe responsável pela caracterização (Cabelo, Maquiagem, Figurino) e seu intérprete. Não por acaso, Hill e Elordi foram homenageados com o Wavelength Award, prêmio que foi entregue pelo site IndieWire no último dia 4 de dezembro, em Los Angeles.
A entrega do ator pode lhe valer ainda sua primeira indicação ao Oscar, como coadjuvante. E o filme segue sendo forte concorrente nas categorias de Melhor Desenho de Produção, Melhor Figurino e, é claro, Melhor Maquiagem e Cabelo.

CURIOSIDADE: Inicialmente, Andrew Garfield havia sido escalado para o papel da Criatura, mas desistiu poucas semanas antes das filmagens, alegando conflitos de agenda.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



