Um dos filmes mais comentados do momento não está no Oscar 2026. Nova adaptação do livro de Emily Brontë, “O Morro dos Ventos Uivantes” continua em cartaz nos cinemas – e envolto em polêmicas, em torno de sua abordagem extravagante e ousada, com direção de arte, figurinos e maquiagem (e cabelos) exuberantes.
Diretora de “Bela Vingança” (2020) e “Saltburn” (2023), Emerald Fennell apresenta a sua versão do clássico de Brontë, que tanto a impactou quando o leu pela primeira vez, aos 14 anos. Até porque, não havia sentido em dirigir mais uma versão convencional da obra, publicada originalmente em 1847 no Reino Unido sob o pseudônimo masculino Ellis Bell em uma edição de dois volumes, cada um cobrindo uma geração dos protagonistas.
Brontë escreveu o livro por volta de 1845, quando tinha 27 anos, e morreu após seu lançamento, em 1848, aos 30 anos, sem ver seu trabalho ser aclamado como o clássico do romantismo gótico que se tornou. Centrado no relacionamento destrutivo e obsessivo entre Heathcliff e Catherine (Cathy) Earnshaw, “O Morro dos Ventos Uivantes” virou objeto de culto – e matéria-prima para o cinema e a televisão em uma série de adaptações desde 1920, quando foi lançada a primeira adaptação no cinema mudo britânico.
A segunda transposição do livro para a telona, de 1939, é uma das mais famosas, com Laurence Olivier e Merle Oberon nos papeis principais. E a versão mais popular, ao menos até a atual lançada nos cinemas, era a de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de 1992, com Ralph Fiennes (em início de carreira) e Juliette Binoche encarnando Heathcliff e Cathy.

Seguiram-se outras adaptações, como a elogiada recriação de Andrea Arnold em 2011 – a primeira com um ator negro no papel de Heathcliff –, mas nenhuma teve o impacto cultural nem gerou tanta polêmica como “O Morro dos Ventos Uivantes” de Fennell, protagonizado por dois astros (e sexy symbols), Jacob Elordi (de “Frankenstein”) e Margot Robbie (“Barbie”).
Segundo a cineasta inglesa, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original (por “Bela Vingança”, em 2021), sua versão não é uma adaptação fiel mas uma “reimaginação”, trazendo à tona a obsessão mútua de Heathcliff e Cathy, que vai resultar na destruição não só de ambos, mas de todos que os cercam.
Assim como Baz Luhrmann já havia feito em seu “Romeu + Julieta”, de 1996, e Sofia Coppola, com “Maria Antonieta”, em 2006, Fennell emprega figurinos e trilha sonora modernos, sem se ater à fidelidade histórica. O que importa é explorar, com seu estilo provocativo, o desejo e a relação tóxica dos amantes vividos por Elordi e Robbie, ao som de Charli XCX.
Por meio de metáforas visuais, Fennell explicita o desejo sexual e a paixão que são sufocados e apenas sugeridos no livro. Para materializar sua visão lúdica, ela utilizou uma abordagem altamente estilizada diferente de todas as versões anteriores.
Goste ou não do novo “Morro dos Ventos Uivantes”, não dá pra ficar indiferente ao impacto visual do filme, que contou com duas colaboradoras de Fennell em “Saltburn”: Siân Miller @siantmiller, chefe do departamento de cabelo e maquiagem, e a designer de produção Suzie Davies, que inovou recriando a pele e veias de Robbie estampadas em objetos de cena.
Destaque também para Jacqueline Durran, figurinista vencedora do Oscar por Anna Karenina (2013) e “Adoráveis Mulheres” (2019). Junto com sua equipe, ela criou 38 looks personalizados para Robbie – com quem já havia trabalhado em “Barbie” (2023) –, mesclando estilos, materiais e referências que vão do período elisabetano ao romantismo vitoriano, e até peças de joalheria vintage do arquivo da Chanel.




Fennel deu liberdade total para cada departamento inovar, sem se ater à fidelidade histórica. Nas palavras de Miller, a maquiagem e o cabelo do filme são “uma combinação de melodrama dos anos 50 do século passado e excesso vitoriano com elementos fantásticos”. “Maria Antonieta” foi uma das maiores inspirações do longa-metragem, assim como o clássico “Longe Deste Insensato Mundo”, de 1967, serviu de referência para Heathcliff.
Desde o início, Miller sabia que o projeto não teria uma abordagem tradicional do filme de época. Fennell deixou claro que a concepção visual devia ser guiada pela imaginação de uma garota de 14 anos como ela foi, ao ler o livro de Brontë pela primeira vez.
Miller e sua equipe criaram cerca de 46 penteados diferentes para Margot Robbie ao longo das filmagens, usando duas perucas feitas sob medida para combinar com a cor do cabelo da atriz. Conforme a história avança, seus penteados são cada vez mais estruturados e seus cabelos presos através de acessórios (fitas, joias etc) — ela ascende socialmente, mas vai perdendo sua liberdade.
NOTA DA MIRELLA: Cada detalhe foi pensado para expressar cada fase ou estado emocional de Cathy, como a peruca em forma trançada de treliça que a personagem usa ao se casar, simbolizando seu aprisionamento. Mas o look que já viralizou na internet é o penteado com duas tranças entrelaçadas por uma fita vermelha como se fosse um espartilho. Nas redes sociais já tem até tutorial explicando como fazer, o que demonstra a força da visão de Fennell e sua equipe.
Não há nada mais gratificante para uma profissional de maquiagem e cabelo do que ver um dos looks que criou se tornar referência, ou seja, fazer parte da vida das pessoas.




Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



