A 79ª edição do Festival de Cannes chegou ao fim no último sábado (23/5), com a cerimônia de premiação. Neste ano, sem brasileiros na competição oficial, “Fjord” ficou com a Palma de Ouro, a segunda na carreira do cineasta romeno Cristian Mungiu, e “Minotaur” levou o segundo lugar (Grand Prix) da premiação.
Quase duas décadas depois de seu “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” levar a Palma de Ouro, em 2007, Mungiu conquistou mais uma vez a maior honraria do festival com “Fjord”, seu primeiro projeto em língua inglesa.
Em alta desde sua transformação no presidente Donald Trump em “O Aprendiz” (2024), Sebastian Stan estrela o drama familiar de Mungiu ao lado de Renate Reinsve, indicada ao Oscar neste ano por “Valor Sentimental”. Os dois vivem um casal de imigrantes romenos que se muda para uma vila isolada na Noruega, onde serão confrontados pelas autoridades locais, em razão de seus valores religiosos e a educação rígida que exercem sobre os cinco filhos.
“Fjord” tem distribuição nos EUA pela Neon, que chega a seu sétimo filme premiado com a Palma de Ouro desde 2019, quando “Parasita” começou sua trajetória vitoriosa no festival francês. Desde então, a empresa americana de produção e distribuição de filmes independentes esteve ligada a “Titane” (2021), “Triângulo da Tristeza” (2022), “Anatomia de uma Queda” (2023), “Anora” (2024) e “Foi Apenas um Acidente” (2025) – todos premiados com a Palma de Ouro em Cannes.

O filme de Mungiu trata de intolerância religiosa e polarização, temas que reverberaram em uma edição do festival marcada por filmes que espelham a ascensão da extrema direita, o fundamentalismo e o preconceito contra a diversidade. Portanto, a seleção de Cannes 2026 foi um espelho do caos do mundo, com diferentes cineastas se posicionando, direta ou indiretamente, sobre um estado de coisas e questões que os afligem.
Foi o caso do russo Andrey Zvyagintsev, vencedor do Grand Prix (espécie de 2º lugar do festival) por “Minotaur”, releitura livre de “A Mulher Infiel” (1969), de Claude Chabrol. Em seu novo trabalho, o diretor indicado ao Oscar por “Leviatã” e “Loveless – Sem Amor” aborda a crise moral da Rússia, com sua elite corrupta e a guerra da Ucrânia como pano de fundo.
Com tantas produções densas e fortes neste ano, o júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook (de “Oldboy” e “A Criada”) optou por conceder três empates na premiação. O primeiro foi na categoria de Melhor Direção, dividida entre a dupla espanhola Javier Ambrossi e Javier Calvo, de “A Bola Negra”, e o cineasta polonês Pawel Pawlikowski, por “A Terra do Meu Pai”, sobre o retorno do escritor Thomas Mann à Alemanha, ao lado da filha Erica, em 1949. “Fatherland” (título original) explora o processo de desumanização quando uma nação se submete de forma cega a ideologias políticas.
Virginie Efira e Tao Okamoto foram reconhecidas por trabalho no aclamado “All of a Sudden” (de Ryusuke Hamaguchi), nos papeis de uma médica francesa e de uma autora teatral japonesa que estabelecem uma conexão profunda. Muito elogiado, o novo filme do diretor de “Drive My Car” reflete sobre tratamento humanizado e era considerado um dos mais fortes concorrentes à Palma de Ouro.
Outro empate veio com o belga Emmanuel Machia e o francês Valentin Campagne, os dois jovens protagonistas de “Coward”, que dividiram o prêmio de interpretação masculina. Assim como “A Bola Negra”, o aguardado novo longa de Lukas Dhont (diretor de “Close”) também trata dos desafios de crescer e assumir sua homossexualidade em meio à repressão da sociedade.
Com “Natal Amargo”, que estreia no Brasil na próxima quinta (28/5), Pedro Almodóvar retornou a Cannes com mais um roteiro metalinguístico sobre crise criativa, depois de trabalhar com autoficção em “Má Educação” (2004), “Abraços Partidos” (2009) e “Dor e Glória” (2019). Porém, não foi desta vez que o diretor espanhol finalmente levou sua primeira Palma de Ouro. Além dele, os dois únicos representantes norte-americanos na seleção oficial, “The Man I Love” (de Ira Sachs) e “Paper Tiger” (de James Gray), também ficaram sem prêmios.
Se o Brasil esteve fora da competição principal, ao menos uma coprodução se destacou na mostra paralela Un Certain Regard (Um Certo Olhar): “Elefantes na Névoa”, estreia na direção de Abinash Bikram Shah, sobre a comunidade Kinnar no Nepal. Ambientado em um vilarejo nepalês cercado por uma floresta habitada por elefantes selvagens, o longa venceu o Prêmio do Júri e foi reconhecido como Melhor Criação Sonora (todo o trabalho realizado por brasileiros).

Outro filme com coprodução brasileira, o chileno “La Perra” foi exibido na Quinzena dos Realizadores e rendeu à cadelinha Yuri a Palm Dog, prêmio entregue ao cão que mais se destacou entre todos os títulos exibidos no festival. Com participação especial de Selton Mello no elenco, “La Perra” conta com coprodução da RT Features de Rodrigo Teixeira, também produtor de “Paper Tiger”, indicado à Palma de Ouro. E, dirigido pelo paulistano Lucas Acher, “Laser-Gato” – única produção 100% brasileira em Cannes – foi premiado como melhor curta-metragem na mostra La Cinef, dedicada a escolas de cinema.
Além de Peter Jackson (diretor da saga “O Senhor dos Anéis”) e de John Travolta, agraciados com prêmios honorários ao longo do festival, Barbra Streisand foi escolhida para receber a Palma de Ouro Honorária pelo conjunto da carreira. A lendária atriz e cantora iria receber o prêmio na cerimônia de encerramento, mas não pôde comparecer a Cannes, após uma lesão no joelho. Streisand foi homenageada pela grande atriz Isabelle Huppert.
Com sua participação em “Contos Paralelos”, drama do iraniano Asghar Farhadi que disputou a Palma de Ouro, Huppert chegou à marca histórica de 22 filmes exibidos na seleção oficial ao longo da carreira. A diva francesa é um dos símbolos do festival que vem impulsionando vários títulos rumo ao Oscar, como “Parasita”, “Anatomia de uma Queda”, “Anora” e “Valor Sentimental”, mais recentemente, e que irá completar, em 2027, 80 anos de história.
PALMA DE OURO
“Fjord”, de Cristian Mungiu
GRAND PRIX
“Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev
PRÊMIO DO JURI
“The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach
MELHOR DIREÇÃO
(empate)
Javier Calvo e Javier Ambrossi, por “A Bola Negra” (empate)
Pawel Pawlikowski, por “A Terra do Meu Pai” (empate)
MELHOR ATRIZ
(empate)
Virginie Efira e Tao Okamoto, por “All of a Sudden”
MELHOR ATOR
(empate)
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, por “Coward”
MELHOR ROTEIRO
“A Man of his Time”, de Emmanuel Marre
(clique aqui e confira a lista completa)
PALMA DE CURTA-METRAGEM
“For the Opponents”, de Federico Luis
DOCUMENTÁRIO
“Rehearsals for a Revolution”, de Pegah Ahangarani
QUEER PALM (Láurea LGBTQIAPN+)
“Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, de Jane Schoenbrun (EUA)
UN CERTAIN REGARD PRIZE
“Everytime”, de Sandra Wollner
UN CERTAIN REGARD – PRÊMIO DO JÚRI
“Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah
UN CERTAIN REGARD – PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
“Iron Boy”, de Louis Clichy
CAMÉRA D’OR (melhor filme de estreante)
“Ben’imana”, de Marie-Clémentine Dusabejambo
PRÊMIO DA CRÍTICA (FIPRESCI)
“Fjord”
PRÊMIO DO JÚRI ECUMÊNICO
“Fjord”
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena

