Dirigido e coescrito por Chloé Zhao, “Hamnet” recebeu 8 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Atriz (Jessie Buckley, favorita ao prêmio). Nenhum concorrente do Oscar deste ano tem emocionado mais o público do que o drama sobre o luto vivido por William Shakespeare (papel de Paul Mescal) e sua esposa, Agnes (Buckley), em 1596.
Segundo estudiosos da obra do bardo inglês, a morte de Hamnet (Jacobi Jupe) – seu único filho homem, aos 11 anos – teria influenciado, anos depois, a criação da peça “Hamlet”, lembrando que Hamnet e Hamlet eram um só nos registros britânicos no final do século 16.
Escrito por Maggie O’Farrell e publicado em 2020, o romance “Hamnet” parte desse fato real para imaginar não só o impacto dessa tragédia sobre Shakespeare (1564-1616), mas sobretudo a dor enfrentada por sua mulher, Agnes.
Adaptado por Zhao e pela própria autora do livro, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” tem como grande mérito dar voz a uma personagem pouco lembrada e que, como muitas mulheres de artistas renomados ao longo da História, ficava sempre à margem, mesmo servindo de alicerce familiar e apoio à arte de seu parceiro.

O filme acompanha a aproximação entre Agnes e Shakespeare, dois indivíduos bem diferentes que logo se apaixonam e depois se casam. Enquanto ela é extremamente dedicada à família, uma pessoa do campo e mais passional, o dramaturgo é mais cerebral e intelectualmente ambicioso, sonhando com uma vida melhor como dramaturgo em Londres. Esse contraste é o que os atrai e ao mesmo tempo separa, especialmente ao enfrentarem a pior dor que um pai ou mãe pode enfrentar.
Ancorado na arrebatadora interpretação de Buckley, Agnes aparece como uma força da natureza, mística e selvagem, superprotetora de seus filhos com Shakespeare: Judith, a mais velha, e os gêmeos Hamnet e Susanna. Agnes se ressente do marido cada vez mais ausente, imerso em uma nova peça em Londres. E, enquanto ela não consegue superar o luto e a culpa, Shakespeare fecha-se em si mesmo, entregando-se ao trabalho.

Nascida em Pequim e radicada nos EUA, Chloé Zhao começou no cinema independente dirigindo curtas-metragens até estrear em longa-metragem com “As Músicas que meus Irmãos Ensinaram” (2015), seguido por “Domando o Destino” (2017). Lançado durante a pandemia de COVID-19, “Nomadland” (2020) lhe valeu o Oscar de Melhor Direção, fazendo dela apenas a segunda mulher na história premiada nessa categoria (Kathryn Bigelow foi a primeira, com “Guerra ao Terror”, em 2010).
Depois de enveredar pelo cinema blockbuster (e o universo da Marvel) com “Eternos” (2021), Zhao retorna a seu elemento com “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, explorando temas que lhe são caros, como a comunhão do ser humano com a natureza, a fragilidade da existência, e personagens desajustados ou marginalizados.
Sempre com seu estilo contemplativo e poético, que lembra o melhor do cinema de Terrence Malick, e que atinge seu auge na sequência final, cuja catarse tem emocionado espectadores em todo o mundo. Nela, Shakespeare transforma sua dor em arte, e por meio de sua criação artística é que Agnes (assim como o público) finalmente encontra algum alívio e paz após o turbilhão de emoções de “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”.
Curiosidades:
– Composta por Max Richter, a música instrumental “On the Nature of Daylight” foi lançada originalmente no álbum “The Blue Notebooks”, em 2004, e desde então tem sido usada na trilha sonora de produções como “Mais Estranho que a Ficção” (2006), “A Ilha do Medo” (2010), “A Chegada” (2016) e até num dos episódios da série “The Last of Us” (2023). Com seu uso recorrente no audiovisual, a faixa virou sinônimo de luto e foi usada na sequência final de “Hamnet” por sugestão da atriz Jesse Buckley.
– Profissional completa, a designer de cabelo e maquiagem Nicole Stafford @motherofrowie ficou de fora do Oscar, mas recebeu sua primeira indicação ao Bafta neste ano por seu delicado trabalho em “Hamnet”. Para a caracterização de Agnes (Buckley), ela utilizou perucas criadas por Samuel James @samuel_james_wigs_ – sempre ele – que, em seu Instagram, agradeceu a produção por ter incluído seu nome nos créditos finais do filme, pois nem sempre os peruqueiros são lembrados.


– A peça “Hamlet” foi escrita entre 1599 e 1601 e encenada pela primeira vez no Globe Theater por volta desta data, ou seja, anos depois da morte de Hamnet.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



