Ator, diretor, produtor e roteirista, Rob Reiner, de 78 anos, e sua esposa, a fotógrafa e produtora Michele Singer Reiner, de 68 anos, foram encontrados mortos a facadas no último domingo (14/12), na sua mansão em Los Angeles (Califórnia, EUA).
Um dos filhos do casal, Nick Reiner, de 32 anos, é o principal suspeito do assassinato e já foi preso sob custódia pelo Departamento de Polícia de Los Angeles. Ele possui longo histórico de dependência química, com sucessivas internações em clínicas de reabilitação, e acaba de ser indiciado pelo homicídio.
Seu vício em drogas e dificuldades de relacionamento com a família serviram de inspiração para “Being Charlie”, drama que coescreveu ao lado de Matt Elisofon. Lançado em 2015, o filme foi dirigido por seu pai e não teve muita repercussão, ganhando relevância agora com a tragédia pela qual é o único suspeito.

À parte a dor dessas perdas terríveis, só nos resta lembrar o legado de Rob Reiner, com sua versatilidade em diferentes gêneros: da sátira musical de “Isto É Spinal Tap”, passando pela fantasia de “A Princesa Prometida”, até o suspense, em “Louca Obsessão” (1990), entre outros sucessos.
Filho de Carl Reiner, diretor de comédias como “O Panaca” (1979) e “Um Espírito Baixou em Mim” (1984), Rob nasceu em 1947, no bairro nova-iorquino do Bronx. Nos anos 1960, mudou-se com a família para Los Angeles e logo começou a seguir os passos artísticos do pai, atuando e escrevendo para a televisão, em shows como “The Dick Van Dyke” e “The 2000 Year Old Man”.
Na década seguinte, ganhou fama na TV com a série de comédia “Tudo em Família” (1971-1978), na pele do estudante universitário Michael Stivic, papel que lhe valeu dois prêmios Emmy de melhor ator coadjuvante, em 1974 e 1978.
Nos anos 1980, passou para trás das câmeras, estreando na direção de longa-metragem com “Isto é Spinal Tap” (1984), no qual inventa o “mockumentary” – espécie de falso documentário –, em que finge registrar os bastidores de uma fictícia banda de rock. O conceito influenciaria, décadas depois, desde a série “The Office” até o filme “Borat”, que misturam o pretenso registro do real com a ficção.
Depois da comédia adolescente “A Coisa Certa” (1985), estrelada por John Cusack, Reiner dirigiu sua primeira adaptação de uma obra de Stephen King, “Conta Comigo” (1986), que se tornaria um dos clássicos mais amados da Sessão da Tarde, na Rede Globo.

A carreira do diretor seguiria em alta com mais quatro sucessos na sequência: “A Princesa Prometida” (1987), cativante mistura de conto de fadas, humor e romance escrita por William Goldman, “Harry e Sally – Feitos um para o Outro” (1989), comédia romântica estrelada por Meg Ryan que entrou para a história do gênero, o thriller “Louca Obsessão” (1990), mais uma adaptação do mestre Stephen King, e o drama de tribunal “Questão de Honra” (1992), indicado ao Oscar de Melhor Filme.
O romance “Meu Querido Presidente” (1996), com Michael Douglas e Annette Bening, lhe rendeu sua quarta indicação ao Globo de Ouro de Melhor Diretor, mas seus filmes seguintes – “Fantasmas do Passado” (1996), “A História de Nós Dois” (1999), “Alex & Emma” (2003), “Dizem por Aí” (2005) e “Antes de Partir” (2007) – não repetiram o sucesso das décadas de 1980 e 1990.
Além de dirigir e produzir seus próprios projetos, Reiner seguiu também como ator, participando de filmes (“O Lobo de Wall Street”, “Choque e Pavor – A Verdade Importa”) e séries de TV (“New Girl”, “The Good Fight”), sendo a quarta temporada de “O Urso” a mais recente. Ainda neste ano, lançou aquele que seria seu último filme: “Isto é Spinal Tap 2”, sequência de seu cult de 1984 com boa parte do elenco original, incluindo o próprio Reiner no papel do fictício documentarista que acompanha a banda.

Uma das figuras mais queridas pela comunidade de Hollywood, Reiner foi sócio da produtora Castle Rock Entertainment, que cofundou em 1987 e virou subsidiária da Warner. A companhia foi responsável, por exemplo, pela série “Seinfeld” e por dois sucessos baseados em obras de King, “Um Sonho de Liberdade” (1994) e “À Espera de um Milagre” (1999), entre outros.
Em 2009, foi um dos fundadores (ao lado de sua esposa Michele) da American Foundation for Equal Rights (AFER), organização focada na luta pela igualdade no casamento nos EUA – principalmente entre pessoas do mesmo sexo. Democrata convicto, era conhecido por seu ativismo político, apoiando causas progressistas como os direitos da comunidade LGBTQIA+.
Reiner foi pai adotivo de Tracy Reiner, filha biológica da ex-mulher Penny Marshall, diretora de “Quero Ser Grande”, e deixa três filhos de sua união com Michele – Romy, Nick e Jake.
Seus filmes tocavam e continuam emocionando as pessoas, pois Reiner sempre se coloca a serviço da história, sem chamar atenção para a direção, dando espaço para seus atores brilharem.

Poucos diretores têm no currículo, num intervalo de tempo tão curto (1986 a 1992), cinco longas que marcaram gerações e que hoje podem ser considerados clássicos do cinema. Dois deles, “Conta Comigo” e “Louca Obsessão”, estão entre as melhores adaptações da obra de Stephen King – e isso não é pouco.
A SEQUENCIA PERFEITA DE ROB REINER
1986
CONTA COMIGO

Primeira adaptação de uma obra de Stephen King fora do gênero horror ou suspense, o filme marcou época com seu sensível conto de amadurecimento de quatro meninos em busca do corpo de um adolescente desaparecido. E não dá pra esquecer a canção “Stand by Me”, de Ben E. King, ou a cena do vômito coletivo.
1987
A PRINCESA PROMETIDA
O aclamado roteirista William Goldman (“Butch Cassidy”, “Todos os Homens do Presidente”) adaptou seu romance homônimo e Reiner dirigiu o filme que desafiou convenções ao misturar de forma leve comédia, romance e fantasia.
“A Princesa Prometida” não fez tanto sucesso no lançamento, mas ganhou status de cult com o tempo, tornando-se um dos longas de fantasia mais queridos dos anos 1980. Além de revelar o talento (e beleza) de Robin Wright.
1989
HARRY E SALLY – FEITOS UM PARA O OUTRO
Nora Ephron (1941-2012) escreveu essa que é considerada uma das melhores comédias românticas de todos os tempos, com provavelmente a sequência de simulação de orgasmo mais famosa do cinema. A partir de experiências pessoais e muita pesquisa, a roteirista e Reiner e tratam das relações de amor e sexo entre amigos, aqui interpretados por Meg Ryan e Billy Crystal.
Curiosidade: No roteiro original escrito por Ephron (indicado ao Oscar em 1990), os protagonistas não terminavam juntos, se despedindo no final. Só que Reiner – então solteiro há dez anos e desiludido no amor – acabou conhecendo sua futura esposa Michele durante as filmagens e, apaixonado, decide mudar o roteiro para um feliz feliz.
1990
LOUCA OBSESSÃO

Reiner saiu de sua zona de conforto (e feel good movies) ao enveredar pelo primeiro thriller de sua carreira – e não faz feio, com mais um roteiro de William Goldman, que adapta um dos livros mais celebrados de Stephen King (“Misery”, no original).
Por sua atuação eletrizante no papel de Annie Wilkes, que mantém em cativeiro seu escritor favorito, Paul Sheldon, Kathy Bates conquistou o Oscar de Melhor Atriz. Após saber da morte de Reiner, Bates relembrou o amigo que transformou sua carreira: “Ele era brilhante e gentil, um homem que fazia filmes de todos os gêneros para se desafiar como artista”.
1992
QUESTÃO DE HONRA
Escrito por Aaron Sorkin (“West Wing”, “A Rede Social”), este drama de tribunal valeu a Reiner a única indicação ao Oscar de sua carreira, como produtor, na categoria de Melhor Filme, em 1993.
O cineasta mostra todo o seu domínio da narrativa clássica, mantendo a tensão dos diálogos de Sorkin na história centrada no julgamento militar de dois jovens fuzileiros navais acusados de assassinato. Tom Cruise interpreta o advogado de defesa e Jack Nicholson rouba a cena, especialmente no interrogatório final, com a agora icônica frase “You can’t handle the truth!” (Você não aguenta a verdade!).
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena




