Em janeiro fez dez anos da partida do camaleão do rock para as estrelas, aos 69 anos, vítima de um câncer no fígado. O cult “O Homem que Caiu na Terra” traz uma das caracterizações mais icônicas do artista britânico e foi um dos destaques da mostra “Davids”, no cinema Belas Artes Frei Caneca, em São Paulo.

Ator, cantor, compositor, empresário, produtor musical – David Bowie (1947-2016) foi multimídia muito antes da popularização do termo, explorando o diálogo entre a música e outras formas de arte. Ele soube como poucos explorar a caracterização, criando diferentes personas durante sua carreira, como Ziggy Stardust (1972-1973) e o Thin White Duke (1975–1976), além de papeis no cinema.
Como ator, Bowie brilhou como o extraterrestre que acaba viciado nos prazeres (e desvios) da vida na Terra em “O Homem que Caiu na Terra” (1976), o soldado inglês insolente de “Furyo – Em Nome da Honra” (1983) e ninguém menos que Andy Warhol, na cinebiografia “Basquiat – Traços de uma Vida” (1996). Além de ter ficado imortalizado no imaginário popular dos anos oitenta na pele do vilão de collant apertado em “Labirinto – A Magia do Tempo” (1986).
Além de Warhol, Bowie interpretou mais duas pessoas reais no cinema: o governador romano Pôncio Pilatos, em “A Última Tentação de Cristo” (1988), e o cientista Nikola Tesla, em “O Grande Truque” (2006).
Sua música continua a fazer parte da trilha sonora de inúmeras produções, de “As Vantagens de Ser Invisível” (que usa de forma brilhante “Heroes”), passando por “Frances Ha” e “Guardiões das Galáxias”, com “Modern Love” e “Moonage Daydream”, até “Morra, Amor” e “Ladrões”, com “Kooks” e “I’m Afraid of Americans”, só para citar dois exemplos recentes.
CINCO FILMES CULT DO CAMALEÃO

O HOMEM QUE CAIU NA TERRA (1976)
Depois de dirigir a obra-prima de horror psicológico “Inverno de Sangue em Veneza“, o britânico Nicolas Roeg soube explorar a figura andrógina de Bowie, perfeito no papel de um alienígena que chega à Terra com a missão de transportar água para seu planeta natal, que está morrendo.
O personagem adota o disfarce de Thomas Jerome Newton, um homem de negócios que, graças a suas invenções tecnológicas, enriquece rapidamente, ao mesmo tempo em que experimenta distrações terrenas como a televisão, o álcool e, é claro, o sexo.
Só que o gentil Newton não está preparado para a ganância e a crueldade de seus novos colegas de negócios e rivais, e logo descobre que a missão será muito mais difícil do que havia imaginado.

Adaptado do romance de Walter Tevis lançado em 1963, o longa foi filmado no Novo México e ganhou status de cult, graças à sua edição fragmentada — com várias idas e vindas no tempo sem explicação –, à crítica mordaz sobre a sociedade de consumo norte-americana, e a imagens lisérgicas de Bowie, num de seus papéis mais icônicos.
Curiosidade: Stills do filme foram usadas na arte da capa de dois discos de Bowie: “Station to Station” (1976) e “Low” (1977).
FOME DE VIVER (1983)
“Terror-chic” dirigido por Tony Scott, irmão de Ridley Scott, o filme marcou época com sua canção de abertura – “Bela Lugosi’s Dead” (da banda Bauhaus) – e uma cena de amor entre Susan Sarandon e Catherine Deneuve.
A eterna Bela da Tarde interpreta Miriam Blaylock, uma elegante e misteriosa vampira que vive com seu companheiro John (Bowie), seduzindo suas vítimas na noite nova-iorquina. Até que, de repente, ele percebe estar envelhecendo extremamente rápido, fazendo-o procurar uma especialista, Sarah Roberts (papel de Sarandon), que passa a investigar o caso.
FURYO, EM NOME DA HONRA (1983)
Disponível no Apple TV e Youtube (dublado)
Baseado nas experiências de Sir Laurens van der Post na Segunda Guerra Mundial, em 1942, o filme – escrito por Paul Mayersberg, mesmo roteirista de “O Homem que Caiu na Terra” – traz Bowie no papel de Jack Celliers, oficial feito prisioneiro em um campo de concentração mantido pelos japoneses, chefiados pelo capitão Yonoi (Ryuichi Sakamoto), na ilha de Java.
Celliers desafia a autoridade de Yonoi, dando início a uma tensa (e ambígua) guerra psicológica entre dois homens em lados opostos.
Primeiro filme em língua inglesa dirigido pelo japonês Nagisa Oshima (1932-2013), reunindo Bowie e Sakamoto (1952-2023), que também compôs a trilha sonora premiada com o Bafta.

LABIRINTO – A MAGIA DO TEMPO (1986)
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Criador da série “Os Muppets”, Jim Henson (1936-1990) usou toda a sua experiencia com bonecos de marionete para criar, ao lado dos roteiristas Terry Jones (ex-Monty Python) e Dennis Lee, uma história repleta de magia, cenários práticos e centenas de bonecos numa era sem CGI.
Embora um fracasso de bilheteria na época de seu lançamento, “Labirinto” se tornou com o tempo um dos filmes de fantasia mais queridos da década de 1980, com a presença de Bowie só aumentando seu fascínio. Na trama, acompanhamos a “jornada do herói” da adolescente Sarah (Jennifer Connelly, com apenas 14 anos na época) por um mundo fantástico, a fim de salvar seu irmão mais novo das garras do vilão, Jareth.
Além de interpretar Jareth, o Rei dos Duendes que sequestrou o bebê, Bowie canta várias canções, como “As The World Falls Down” e “Underground”, que viraram hits e marcaram gerações.
Curiosidades:
- George Lucas foi produtor executivo do filme.
- Michael Jackson foi considerado para o papel de Jareth, assim como Sting.
- Diretor de “A Bruxa” e “Nosferatu”, Robert Eggers foi escalado para escrever e dirigir uma sequência para “Labirinto”.
BASQUIAT – TRAÇOS DE UMA VIDA (1996)
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Indicado ao Independent Spirit Awards – espécie de Oscar do cinema independente americano – em 1997, o filme marca a estreia do artista plástico Julian Schnabel na direção, contando a história de Jean Michel Basquiat (Jeffrey Wright), jovem que vive nas ruas de Manhattan até ter seu talento como grafiteiro reconhecido.
Em 1981, aos 20 anos, passou a vender pinturas nas galerias do Soho, tornando-se um dos principais artistas de sua geração. “Baquiat” destaca sua ascensão meteórica no mundo das artes, e sua relação com empresários, amigos e, especialmente, o mentor Andy Warhol (vivido por Bowie).

Transposição fiel da cena cultural nova-iorquina dos anos 1980, com o crescimento da cultura hip hop e da arte de rua, “Basquiat” tem no elenco seu ponto alto, com Bowie mimetizando de forma afetuosa o amigo Warhol, Benicio Del Toro na pele de um amigo do protagonista e participações preciosas de Courtney Love, Christopher Walken, Dennis Hopper e Willem Dafoe.
Curiosidade: Muito antes de interpretar Warhol em “Basquiat”, Bowie homenageou o artista plástico com a canção “Andy Warhol”, lançada em 1971 no álbum “Hunky Dory”.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena

