O mês de julho viu três grandes nomes partir: Sam Neill, ator neozelandês famoso pela saga “Jurassic Park”, Brenda Fricker, primeira atriz irlandesa a ganhar um Oscar, por sua atuação em “Meu Pé Esquerdo” (1989), e Luiz Carlos Barreto, um dos maiores produtores de cinema brasileiro, responsável por clássicos como “Vidas Secas” (1963), “Terra em Transe” (1967) e “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), entre outros.
SAM NEILL (1947-2026)
Nascido na Irlanda do Norte e criado na Nova Zelândia, Neill faleceu dia 13/7 em Sydney, Austrália, aos 78 anos. A morte foi em decorrência de uma pneumonia e sua família afirmou, em nota para a imprensa, que o ator estava livre de um linfoma de células T angioimunoblástico, uma forma de câncer no sangue com a qual lutava desde 2022.
Com mais de 150 créditos no currículo, entre produções para TV e cinema, Neill começou a carreira nos anos 1970, em pequenos papéis até estrelar “Força Selvagem” em 1977 e, em 1979, “My Brilliant Career”, um marco do cinema australiano que revelou também o talento da atriz Judy Davis. O sucesso do filme de Gillian Armstrong, com indicações à Palma de Ouro em Cannes, ao Bafta e o Oscar, impulsionou a carreira internacional de Neill.
Em 1981, fez sua estreia em Hollywood interpretando o Anticristo Damien em “A Profecia 3: O Conflito Final”, seguido pelo cultuado “Possessão”, terror psicológico em que vive um casamento no limite da loucura, com a personagem de Isabelle Adjani (premiada em Cannes).
Neill contracenou com Meryl Streep em 1985, no tedioso “Plenty, o Mundo de uma Mulher” e, três anos depois, em “Um Grito no Escuro”, emocionante drama baseado em história real ocorrida na Austrália. Um ano depois, interpretou o marido de Nicole Kidman no elogiado thriller “Terror a Bordo“.

Na década de 1990, Neill intensificou a carreira internacional, com papeis secundários em produções como “A Caçada ao Outubro Vermelho” (1990), “Até o Fim do Mundo” (1991) e “Memórias de um Homem Invisível” (1992), até o retorno à sua terra natal em “O Piano” (1993), obra-prima de Jane Campion premiada com a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Roteiro Original.
No mesmo ano viria o papel pelo qual ficaria conhecido por gerações: o paleontólogo Alan Grant no sucesso “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros”, de Steven Spielberg. Ele repetiria o papel nas continuações “Jurassic Park III” (2001) e “Jurassic World: Domínio” (2022).
Fãs de séries de TV puderam conferir todo o talento do ator nas duas primeiras temporadas de “Peaky Blinders” (2013-2014, disponível na Netflix), como o inspetor Chester Campbell, e na minissérie “Segredos de Família” (de 2024, na Globoplay), na pele do marido suspeito pelo desaparecimento de sua esposa, interpretada por Annette Bening.
Indicado ao Emmy em 1998, como melhor ator de minissérie por “Merlin”, e em 2017, pela narração do documentário “New Zealand: Earth’s Mythical Islands”, Neill deixa quatro filhos.
CURIOSIDADE: O ator quase interpretou o agente secreto James Bond na década de 1980, e chegou a fazer teste para o papel (confira no video abaixo).
BRENDA FRICKER (1928-2026)
16/7 foi outro dia de tristeza para o cinema, com a morte da veterana atriz irlandesa, aos 81 anos. Nascida em Dublin, foi editora assistente no jornal The Irish Times antes de ingressar na atuação, com uma aparição por acaso no filme “Servidão Humana”, em 1964, emplacando depois trabalhos de figuração em filmes e séries como “Tolka Row” (1964) – considerada a primeira telenovela irlandesa –, “Irresistível Bandoleiro” (1969) e “The Sinners” (1971).
Em 1986, ganhou visibilidade na série médica “Casualty”, como a enfermeira Megan Roach, papel que revisitou por diferentes temporadas na BBC até sua última participação, em 2010. Mas a grande chance da sua vida viria com um pequeno filme irlandês que entraria para a história do cinema: “Meu Pé Esquerdo” (1989), de Jim Sheridan.
Na pele da mãe resiliente de Christy Brown (vivido por Daniel Day-Lewis), jovem artista com paralisia cerebral que só conseguia controlar o pé esquerdo, Fricker chamou a atenção de público e crítica com uma atuação emocionante que lhe rendeu projeção internacional e prêmios. Depois de concorrer ao Globo de Ouro em 1989, levou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante no ano seguinte, superando Julia Roberts (“Flores de Aço”) e Anjelica Huston (“Inimigos, uma História de Amor”).
Voltou a trabalhar com Sheridan em mais um forte drama irlandês, “Terra da Discórdia” (1990), chamando a atenção dois anos depois na pele da “senhora dos pombos” do Central Park em “Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York”, contracenando com Macaulay Culkin.
Ao longo das décadas de 1990 e 2000, seguiu em papeis secundários de inúmeras produções, mas sem o brilho de sua parceria com Sheridan, o que a levou a afirmar que “o que aconteceu foi a velha maldição do Oscar, como eles a chamam” – contou ao jornal britânico The Times, em 2024.
No ano passado, Fricker lançou seu livro de memórias, “She Died Young: A Life in Fragments”, no qual revela abusos e traumas que sofreu na infância, além de suas experiências no cinema, ao lado de nomes como Daniel Day-Lewis e o ex-produtor Harvey Weinstein, condenado por crimes sexuais.
LUIZ CARLOS BARRETO (1928-2026)
Chamado de “Barretão” pelos amigos e colegas de trabalho, o lendário produtor morreu dia 22/7, no Rio de Janeiro, aos 98 anos.
Nascido em Sobral, no Ceará, Barreto começou a trabalhar ainda adolescente no jornal O Democrata e se mudou para o Rio de Janeiro, conseguindo emprego na famosa revista O Cruzeiro como fotojornalista e repórter.
Foi correspondente na França, onde passou a frequentar o Idhec, o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos francês. Na volta ao Brasil, coproduziu e corroteirizou “O Assalto ao Trem Pagador” (1962), foi diretor de fotografia de “Vidas Secas” (1963) e, ao lado da esposa Lucy Barreto (hoje com 93 anos), fundou a produtora LC Barreto.
Considerado um dos pais do Cinema Novo, produziu filmes-chave do movimento como “Vidas Secas” (1963), “A Hora e Vez de Augusto Matraga” (1965), “Terra em Transe” (1967) – no qual também foi diretor de fotografia –, e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), os dois últimos pelo amigo Glauber Rocha.
A partir dos anos 1970, Barreto se tornou um dos maiores produtores do país, com sucessos como “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), dirigido por seu filho Bruno Barreto, “A Dama do Lotação (1978) e “Bye Bye Brasil” (1980).
Com a retomada do cinema brasileiro, na década de 1990, duas de suas produções conseguiram chegar ao Oscar, concorrendo na categoria de Melhor Filme Estrangeiro: “O Quatrilho”, dirigido por seu outro filho, Fábio Barreto, em 1996, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto, em 1998.
Em 2019, ele enfrentou a maior tragédia de sua vida: a morte do filho Fábio, diretor de “O Quatrilho” e “Lula, o Filho do Brasil”. Ele tinha 62 anos e estava em coma há quase dez anos, após sofrer um acidente de carro no Rio de Janeiro, em dezembro de 2009.
“Barretão” dirigiu para o cinema apenas uma vez, o documentário “Isto é Pelé” (1974), e em 2001 lançou o livro “Passagem – A Memória Visual de Luiz Carlos Barreto”, que reúne imagens históricas captadas durante sua fase como fotojornalista da revista O Cruzeiro entre 1950 e 1963.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



