A morte do ator britânico é mais uma perda irreparável no mundo do cinema. Imortalizado no papel do Dr. Frank-N-Furter no musical “The Rocky Horror Picture Show”, ele faleceu em 25/8, aos 80 anos, em Los Angeles (EUA).
Ele enfrentava vários problemas de saúde decorrentes de um AVC (acidente vascular cerebral) sofrido em 2012, que o deixou dependente de uma cadeira de rodas.
Nascido em 19 de abril de 1946, em Grappenhall (Cheshire, Inglaterra), Tim Curry se formou na Universidade de Birmingham e começou a carreira como ator profissional em 1968, numa montagem da peça “Hair” em Londres.
Em 1973, Curry estreava no teatro Royal Court com o musical “The Rocky Horror Show”, no papel que o marcaria para sempre: Frank-n-Furter, inspirado no cientista Victor Frankenstein do livro de Mary Shelley. A diferença é que Frank, com sua sexualidade queer, salto alto e look extravagante, quer criar uma criatura que satisfaça todos os seus desejos. Tudo isso por meio de números musicais que servem como uma ferramentas de libertação – não só dos personagens, mas também do público.
Dois anos depois, o musical criado por Richard O’Brien ganhou uma adaptação para o cinema, “The Rocky Horror Picture Show”, com direção de Jim Sharman, e Curry repetindo o papel que o consagrou em Londres. Foi o primeiro longa-metragem do ator que, com sua presença esfuziante e voz de barítono, não decepcionou, compondo um personagem andrógino e irreverente muito a frente de seu tempo.

O filme não foi um sucesso no seu lançamento, mas ao longo dos anos foi ganhando status de cult, graças a exibições noturnas em Nova York e em outras cidades. As plateias começaram a ir fantasiadas, a cantar junto as músicas e a interagir diretamente com os personagens na tela.
“The Rock Horror Picture Show” se tornou um fenômeno cultural, e a representação de Curry – com sua sexualidade transgênero, batom, corset e lingerie – virou não só um ícone queer, mas uma celebração da liberdade de cada um ser quem é. Sem inibições morais, o extravagante cientista do “planeta Transsexual” desafiou tabus, sendo abraçado pela comunidade LGBTQIA+ e por aqueles que se sentem diferentes.
Além de ator, Curry foi também cantor de pop-rock, chegando a se apresentar com sua banda em turnês pelos EUA e pela Alemanha. Depois do filme, ele assinou com a gravadora A&M Records e lançou seu primeiro álbum-solo, “Read my Lips”, em 1978. Seguiram-se mais dois discos: “Fearless”, em 1979, com “I Do the Rock” – sua primeira canção no ranking da Billboard, na posição 91 –, e “Simplicity”, de 1981.
Em 1981, Curry brilhou na Broadway, em Nova York, na pele de Mozart na montagem original de “Amadeus”, ganhando sua primeira indicação ao Tony Awards, considerado o Oscar do teatro americano. Ele perdeu o prêmio para seu parceiro de cena, Ian McKellen, intérprete de Salieri na aclamada peça de Peter Shaffer que viraria filme em 1984.
Curry concorreu ao prêmio Tony por mais duas peças de teatro: em 1993, por “My Favorite Year”, e em 2005, por “Spamalot“, musical satírico no qual interpretou ninguém menos que o rei Arthur.
Na TV, interpretou o autor de “Romeu e Julieta” e “Hamlet” na minissérie “Will Shakespeare”, de 1978, e após as turnês como cantor voltou ao cinema com o musical “Annie” (1982), vivendo mais um vilão de forma leve como só ele conseguia fazer.
Na aventura de fantasia “A Lenda” (disponível no Telecine), de 1985, encarnou nada menos do que o “Senhor das Trevas”, caracterização criada por Rob Bottin através de um fantástico trabalho de maquiagem que envolveu próteses de látex e enormes chifres de fibra de vidro que, de tão pesados, eram fixados nas próteses da cabeça de Curry somente quando ele entrava em cena.


Anos depois, ele iria assustar gerações de telespectadores na pele de Pennywise na minissérie “It: Uma Obra-Prima do Medo” (1990), primeira adaptação do romance de Stephen King sobre o palhaço assassino que aterroriza um grupo de crianças na fictícia cidade de Derry.
O tom sarcástico domina o vilão que ficou marcado pela maquiagem de Bart Mixon, que teve como inspiração Bozo e palhaços de desenho animado. Curry passava de 3 a 6 horas para a aplicação da maquiagem que combinava prótese de látex com pintura clássica de palhaço, aumentando seu nariz e a testa.






Ele continuou atuando como ator coadjuvante, emprestando sua persona extravagante a seus personagens, em filmes como “Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York” (1992, disponível no Disney+), em um de seus papeis mais conhecidos no Brasil – o do desconfiado concierge que persegue Kevin (Macaulay Culkin) no hotel –, e “Os Três Mosqueteiros” (1993, Disney+), na pele do Cardeal Richelieu. Entre outros longas com sua participação, estão “Congo” (1995), “Os Muppets na Ilha do Tesouro” (1996), “As Panteras” (2000) e “Todo Mundo em Pânico 2” (2001), além de inúmeras produções para TV. Até quando exagerava na atuação, Curry tornava seus vilões bem-humorados e interessantes.
Com sua voz poderosa, Curry foi também um ótimo dublador, destacando-se em animações (“Jimmy Neutron“, “Aladdin”, “Star Wars – Clone Stars“) a jogos de videogame, com inúmeros trabalhos em virtude da saúde debilitada. E, no ano passado, lançou sua autobiografia, “Vagabond” (ainda inédita em português no Brasil), em que revisita seus 50 anos de carreira.
Poucos atores interpretaram vilões tão divertidos quanto Curry. Carol Burnett, que foi sua parceira de cena no musical “Annie” (1982), foi precisa ao escrever sobre o ator em suas redes sociais: “ninguém interpretou vilões adoráveis melhor do que ele”.
Só nos resta celebrar esse ator único e relembrar alguns de seus melhores trabalhos, começando com “Rock Horror Picture Show” e uma das mais eletrizantes (e divertidas) entradas da história do cinema.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



