Baseado nos poemas clássicos de Homero, “A Odisseia” é o primeiro filme comercial inteiramente rodado com câmeras IMAX na história do cinema. A tecnologia impõe inúmeros desafios para a produção, inclusive para os departamentos de cabelo e maquiagem.
Em cartaz nos cinemas, a superproduçao épica se tornou o terceiro filme de Christopher Nolan a ultrapassar US$ 1 bilhão em bilheteria mundial. O primeiro longa-metragem na história do cinema a ultrapassar essa marca foi “Titanic”, de James Cameron, lançado no fim de 1997.
O clássico “Ilíada” antecede os acontecimentos de “A Odisseia”, mostrando o romance entre Helena e Páris que deflagrou a Guerra de Tróia. Tanto a “Ilíada” quanto “A Odisseia” foram atribuídos ao poeta grego Homero por volta do século 8 antes de Cristo, na forma de versos que eram recitados em voz alta, dentro da tradição oral daquela época, e depois foram imortalizados em 24 livros reunindo mais de 12 mil versos no total.
A aventura narra a saga de Odisseu (Matt Damon) — também conhecido como Ulisses, na versão em latim —, que passa 20 anos tentando voltar para sua terra natal, a ilha de Ítaca, na Grécia. Depois de lutar ao lado dos gregos na Guerra de Tróia, ele precisa enfrentar ciclopes, monstros e sereias enquanto tenta voltar para seu reino e sua esposa Penélope.

Como em seus outros trabalhos, Nolan não abre mão de sua abordagem realista, com o uso de efeitos práticos em câmera (completados por efeitos digitais na pós-produção) e boa parte das filmagens em locações reais, que em “A Odisseia” passaram por seis países (Marrocos, Grécia, Itália, Islândia, Escócia e Estados Unidos).
Nada de fundo verde: se a história pede um navio viking, a produção usou um real, o que torna a ação na tela mais convincente. Até o compositor da trilha sonora, Ludwig Goransson — vencedor do Oscar por “Pantera Negra”, “Oppenheimer” e “Pecadores” —, deixou de lado a tradicional orquestra para ressaltar na trilha instrumentos simbólicos da cultura grega, como a lira.
A busca incessante do diretor por tornar tudo crível se estende até à presença dos deuses. Menos presentes na trama, eles assumem formas humanas — como a deusa Athena (vivida por Zendaya), que surge como uma projeção psicológica de Odisseu —, ou simbólicas, por meio de fenômenos da natureza, por exemplo. O diretor esconde os deuses, preferindo mostrar a história pela perspectiva dos humanos.
Com isso em mente, Gloria Pasqua Casny (chefe do departamento de cabelo – hair department head) e Luisa Abel (chefe do departamento de maquiagem – makeup department head) deixaram um pouco de lado a exuberância associada aos deuses da mitologia, seguindo o que o diretor queria — “uma narrativa terrena”.

Na fase de pré-produção, Casny e Abel visitaram vários museus para pesquisar em murais e pinturas como era os rostos (e o cabelos) dos gregos naquela época. A hair stylist descobriu que há 3 mil anos já usavam rolos de cabelo e, por isso, cabelos cacheados já faziam sucesso, representando beleza, heroísmo e até divindade. Nesse quesito, Tom Holland, intérprete de Telêmaco (filho de Odisseu), foi um dos atores com o cabelo mais adequado e pronto para seu personagem. Para Calypso (Charlize Theron), ninfa do mar que acolhe Odisseu numa ilha deserta, Casny usou truques simples como mousse para o cabelo, fazendo-o parecer sempre molhado.
Abel e sua equipe fizeram parte de um verdadeiro batalhão de profissionais, com 186 pessoas alocadas em cabelo e maquiagem, além de 248 em figurinos e guarda-roupa, em seis países. Todos entre os primeiros a chegar pela manhã e os últimos a deixar o set (fonte: @occupyfilmproduction).
Além da escala da produção, os departamentos de cabelo e maquiagem enfrentaram ainda condições climáticas adversas, como umidade e ventos no Marrocos, chuvas extremas na Islândia e temperaturas congelantes nas cenas de barco. Em entrevista, Casny lembrou da decisão de Nolan em não usar perucas, o que acabou sendo um alívio pois seria muito difícil para a equipe de cabelo e maquiagem controlar sua estabilidade na cabeça dos atores durante as filmagens ao ar livre.
A passagem do tempo, que chega a vinte anos ao longo da história, foi outro desafio. O trabalho das equipes de cabelo e maquiagem foi fundamental para mostrar as mudanças físicas dos personagens ao longo do tempo. Matt Damon, por exemplo, aparece com o cabelo castanho em suas cenas na batalha de Tróia, e com mechas brancas em suas cenas dez anos depois.
Processo de envelhecimento semelhante ao de John Leguizamo, que interpreta Eumeu, leal servo de Odisseu. O ator enfrentou sessões de quatro horas diárias na cadeira de maquiagem, e teve de usar lentes de contato especiais que o deixavam praticamente sem enxergar, em gravações que chegavam a 14 horas por dia.

Conhecidas por seu tamanho e peso (que chega a 130 kilos), as câmeras IMAX usam película de 70 mm, o dobro das normais (35 mm), gerando altíssima resolução (equivalente a 18K), dificultando o trabalho de toda a equipe, dos atores aos profissionais de caracterização. Na tela gigante do IMAX, cada poro, cada fio de cabelo, cada barba e cada textura da pele ganha ainda mais exposição.
A maquiagem é parte integrante da construção visual de cada personagem e, em conjunto com outros departamentos e mentes criativas, define sua caracterização.
NOTA DA MIRELLA: Nem toda transformação acontece diante dos nossos olhos.
O departamento de maquiagem raramente aparece nas manchetes, mas é nele que o tempo ganha rugas. Que as guerras deixam cicatrizes. Que heróis, reis e marinheiros deixam de ser atores para se tornarem personagens.
Por isso, para Luisa Abel, “a melhor maquiagem de cinema é aquela que desaparece. Porque, quando você acredita no personagem, é sinal de que centenas de decisões invisíveis deram certo.”
+ ADAPTAÇÕES E RELEITURAS DE “A ODISSEIA”
1954
ULYSSES
Direção de Mario Camerini. Com Kirk Douglas no papel de Ulysses (Odisseu)

1997
A ODISSEIA
Direção de Andrei Konchalovsky. Minissérie com Armand Assante no papel de Odisseu
2000
E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?
Direção de Joel e Ethan Coen. Com George Clooney como Ulysses

2024
O RETORNO
Direção de Uberto Pasolini. Com Ralph Fiennes e Juliette Binoche como Odisseu e Penélope
Até lá, para quem gostou do filme ou quer conhecer a epopeia de Odisseu em toda a sua extensão e detalhes, fica como dica a primorosa edição da Dark Side adaptando a obra de Homero em forma de HQ, com ilustrações deslumbrantes de seu autor, Gareth Hinds.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena




