Lançado originalmente em 1985, o filme é baseado na peça “Rei Lear”, de William Shakespeare (1564-1616) e em lendas japonesas. Um dos maiores épicos da história do cinema, “Ran” será relançado em algumas salas de cinema de São Paulo e do Rio de Janeiro no dia 1º de outubro, em cópia restaurada e remasterizada em 4K.
“Ran” nos transporta para o Japão do século 16, com Tatsuya Nakadai no papel do chefe feudal Hidetora Ichimonji, que resolve se aposentar e dividir seu império entre os três filhos. Só que Saburu, o mais novo, questiona a decisão e acaba sendo expulso do reino. Seus irmãos, Taro e Kiro, assumem o poder e logo se tornam rivais na disputa pelo controle total das terras. O patriarca é traído e aos poucos vai perdendo a sanidade, em meio à disputa fratricida que vai culminar numa sangrenta guerra civil.
A trama, livremente inspirada na tragédia de Shakespeare, com elementos da história do daimyô Mori Motonari (1497-1571), foi escrita por Kurosawa, Hideo Oguni e Masatovai, e traz algumas das cenas de batalha mais espetaculares da história do cinema moderno, brilhantemente dirigidas por Kurosawa, que se dedicou por mais de 10 anos para levar essa superprodução ao cinema.
Foi o filme mais caro já feito no Japão até então, com suntuosa reconstituição do período feudal, figurinos cuidadosamente elaborados, centenas de extras e animais. Coprodução com a França (Serge Silberman, dos filmes de Luis Buñuel, foi um dos produtores), concorreu a quatro Oscar – diretor, fotografia, direção de arte e figurino (único que venceu). Kurosawa perdeu o Oscar de Melhor Diretor para Sydney Pollack, de “Entre Dois Amores”. Foi a única indicação de sua carreira na categoria, até receber um Oscar honorário em 1990.
“Ran”(乱) – título que pode ser traduzido como “caos” ou “tumulto” – está disponível na plataforma de streaming Belas Artes à la Carte, assim como o documentário “A.K.”, dirigido pelo francês Chris Marker sobre os bastidores da produção. Conhecido pelo cultuado curta-metragem “La Jetée” (1962), que inspirou “Os 12 Macacos” (1995), Marker acompanha vários dias de filmagem de “Ran” no final de 1984, mostrando Kurosawa em ação.
Tragédia humana sobre a futilidade da guerra, “Ran” é um espetáculo visual único que merece ser visto na telona, em todo o seu esplendor, especialmente agora remasterizado e restaurado. Várias de suas cenas lembram pinturas em movimento, na forma de poesia que só Kurosawa consegue criar.
NOTA DA MIRELLA: Tameyuki Aimi e Chihako Naito venceram o prêmio Bafta de Melhor Artista de Maquiagem. Com poucos diálogos, os personagens expressam muitas de suas emoções por meio da maquiagem, que no filme é influenciada pelo tradicional teatro japonês Noh. Um exemplo é o rosto da manipuladora Lady Kaede, que tem as sobrancelhas pintadas bem acima da linha natural, o que acentua sua frieza.

+ ADAPTAÇÕES DE “REI LEAR” NAS TELAS
1971
REI LEAR
Direção de Peter Brook. Com Paul Scofield no papel-título

1983
REI LEAR
Direção de Michael Elliott
Com Laurence Olivier, vencedor do Emmy de Melhor Ator em Minissérie
Indisponível em plataformas de streaming no Brasil. Com legendas em inglês, no Youtube
1997
TERRAS PERDIDAS
Direção de Jocelyn Moorhouse
Com Michelle Pfeiffer, Jessica Lange, Jennifer Jason Leigh, Jason Robards
Versão moderna inspirada na peça

2018
REI LEAR
Direção de Richard Eyre
Com Anthony Hopkins, Emma Thompson, Emily Watson, Florence Pugh
Indisponível em plataformas de streaming no Brasil. Dublado em português no YouTube
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena

