Exilada na França desde 1994, a artista iraniana morreu em 4 de junho, aos 56 anos, em Paris. A causa médica não foi divulgada, mas segundo seus familiares em nota divulgada à imprensa, “Marjane morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”.
Nascida em 1969 em Rasht, no norte do Irã, Satrapi fez parte de uma família de ativistas políticos que se opunha ao autoritarismo dos governos autoritários que imperavam no país, sobretudo o regime dos aiatolás que passou a vigorar com a Revolução Islâmica de 1979. Em 1983, aos 14 anos, ela foi enviada para Viena, onde passou a adolescência até retornar ao Irã, em 1989, para estudar Comunicação Visual na Faculdade de Belas Artes da Universidade Islâmica Azad, em Teerã.
Em 1994, se mudou para a França, onde estudou ilustração e passou a colaborar com livros infantis, jornais e revistas. Suas ilustrações foram publicadas, por exemplo, na revista The New Yorker e no jornal The New York Times.
No início dos anos 2000, Satrapi alcançou fama mundial com a graphic novel “Persepolis”, publicada originalmente na França em quatro volumes. Autobiográfica, a obra narra sua infância durante a Revolução Islâmica e sua adolescência na Europa. Pelos olhos precoces de uma menina de nove anos, vemos as esperanças de um povo golpeado pela chegada dos fundamentalistas ao poder.
A HQ foi publicada no Brasil pela editora Companhia das Letras e já foi eleita um dos melhores livros do século 21 pelo New York Times. O sucesso dos quadrinhos levou à sua adaptação para o cinema em forma de animação, em 2007, dirigida pela própria Satrapi ao lado de Vincent Paronnaud.
“Persepolis” levou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e, em 2008, concorreu ao Oscar de Melhor Animação (que foi para “Ratatouille”), fazendo de Satrapi a primeira mulher indicada como diretora por um longa-metragem de animação.

* Prêmio do Júri no Festival de Cannes.
* Indicado ao Oscar® de melhor animação.
* César de melhor filme de estreia e roteiro adaptado.
* Melhor animação pelo Círculo dos Críticos de Nova York
* Melhor filme estrangeiro – escolha do público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Após o sucesso de “Persepolis”, ela criou mais uma história em quadrinhos, “Bordados”, publicada primeiro em francês em 2003. Um ano depois, publicou outra HQ, “Frango com Ameixas”, adaptada para o cinema com ela e Paronnaud na direção. Estrelado por Mathieu Amalric e Golshifteh Farahani, o filme – disponível para aluguel no Prime Video – foi lançado em 2011 e narra em tom de fábula uma história ambientada na Teerã de 1958.
Após uma fracassada incursão em uma coprodução norte-americana, com a comédia “As Vozes” (2014), estrelada por Ryan Reynolds, Satrapi dirigiu “Radioactive”, elogiada cinebiografia da física e química Marie Curie. Interpretada por Rosamund Pike, a cientista polonesa, naturalizada francesa, realizou pesquisas inovadoras sobre radioatividade e conquistou o Prêmio Nobel de Física em 1903 e o Nobel de Química em 1911.
Crítica ferrenha do regime iraniano até o fim de sua vida, ela foi uma importante apoiadora do movimento “Mulher, Vida, Liberdade“, criado após a morte de Mahsa Amini, estudante iraniana de 22 anos que foi detida e espancada até a morte pela polícia religiosa de Teerã em setembro de 2022. Acusada de não usar de maneira “correta” o hijab, véu imposto às mulheres pela República Islâmica.
Satrapi reuniu uma série de artistas e especialistas para denunciar essa tragédia em seu retorno a um projeto de quadrinhos, “Mulher, Vida, Liberdade”, publicado em 2024, ano em que lançou seu último filme, “Paradis Paris”, estrelado por Monica Bellucci.

Ao incorporar em seu trabalho as experiências que viveu e testemunhou, a autora, diretora e ilustradora deu voz às mulheres sufocadas pelas restrições políticas e sociais impostas no Irã. Presidente da França, Emmanuel Macron resumiu bem Satrapi como “uma grande artista que transformou sua infância em uma lenda universal”.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena



