Com seu mais novo trabalho, “Natal Amargo”, em cartaz nos cinemas brasileiros, o diretor espanhol mais uma vez reflete sobre o processo de criação – e o seu cinema, que tem se tornado cada vez mais metalinguístico e reflexivo sobre a finitude da vida.
A filmografia de Almodóvar transita por diversos gêneros (comédia, melodrama, thriller), com trabalhos que vão da transgressão de “Maus Hábitos” (1983) e o humor escrachado de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988), passando pelo noir sensual de “Matador” (1986), o auge na maturidade com “Carnê Trêmula” (1997), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999) e “Fale com Ela” (2002), até a fase atual, mais reflexiva e de traços autobiográficos, com “Dor e Glória” (2019), “O Quarto ao Lado” (2024) e agora “Natal Amargo”.
Nascido em Calzada de Calatrava, pequena cidade da região de La Mancha, na Espanha, em 24 de setembro de 1949, Pedro Almodóvar emergiu de uma infância humilde para a posição de mais influente diretor espanhol do cinema europeu contemporâneo.
Aos 18 anos, ele deixou seu emprego na Companhia Telefônica e migrou para a capital Madri, onde começa a filmar seus primeiros filmes em Super 8. Desde seus primeiros curtas na década de 1970, e sua estreia na direção de longa-metragem com “Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão”, em 1980, Almodóvar chacoalhava a sociedade espanhola, desafiando as convenções e a moral vigente ao dar voz aos excluídos e à comunidade LGBTQIA+, que passaram a ter representação na tela.

No início dos anos 1980, ele fez parte do movimento de contracultura La Movida Madrileña, que emergia na Espanha em oposição ao Franquismo, regime ditatorial do General Francisco Franco que dominou o país entre 1939 e 1976, levando ao exílio artistas do país como Luis Buñuel e Picasso.
Almodóvar deu espaço a personagens marginalizados e também a seus anseios e desejos mais profundos. Desejo que é palavra-chave no cinema almodovariano, que foi evoluindo de uma estética underground nos anos 1980 para um estilo visual mais sofisticado na construção dos planos, na direção de arte, nos figurinos e na fotografia, quase sempre com a paleta de cores quentes saturada, especialmente a partir de “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988).
A abordagem franca e libertária da sexualidade trouxe em primeiro plano temáticas de gênero, com personagens LGBTQIA+ fora vivendo conflitos cotidianos, quase sempre com as emoções (e o desejo) à flor da pele, sem julgamentos morais.

Ao longo dos anos 1990, os excessos e transgressões de filmes como “Ata-me” (1989), “De Salto Alto” (1991) e “Kika” (1993) – este com uma criticada cena de estupro – foram dando lugar à fase mais madura e premiada do diretor, formada por “A Flor do Meu Segredo” (1995), “Carne Trêmula” (1997), “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999) – vencedor do Bafta e do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e de Melhor Direção no Bafta e no Festival de Cannes – e “Fale com Ela” (2002), que lhe valeu sua única estatueta da Academia, na categoria de Melhor Roteiro Original. Nesses trabalhos, Almodóvar mergulha no melodrama e em algumas de suas obsessões, como a construção da identidade, o empoderamento feminino, a maternidade, e a linha tênue entre a vida e a morte.
O estilo caótico e despojado dos primeiros filmes foi dando lugar a narrativas mais austeras e controladas, com mais camadas de subtexto e Almodóvar refletindo sobre a criação artística e suas memórias. E os personagens, sem deixar de lado seus desejos, foram cedendo mais ao amor e à compaixão.
A morte de sua mãe, em 1999, marcaria para sempre sua vida e carreira, tornando a maternidade tema recorrente de algumas de suas produções seguintes, como “Tudo Sobre Minha Mãe” (1999), “Volver” (2006) e “Mães Paralelas” (2021), todas com grandes personagens femininas como centro emocional da trama. Por estes dois últimos, Penélope Cruz concorreu ao Oscar de Melhor Atriz.
Com “Má Educação” (2004), Almodóvar mergulha em lembranças da sua infância, incorporando na ficção situações reais que testemunhou ou viveu, suscitando a velha pergunta: “a arte imita a vida ou a vida imita a arte?”

Pedro Almodóvar, em entrevista para a “Time International” em 1999
Para Ana Lucília Rodrigues, psicanalista e mestre em psicologia autora do livro “Pedro Almodóvar e a Feminilidade”, “A vida e obra de Pedro Almodóvar aparecem entremeadas: uma é consequência da outra. Sua narrativa pessoal, a escolha de temas originais, a apresentação de personagens e situações marginais de forma natural, acabam causando no espectador um sentimento de cumplicidade, angústias, risos e, em muitos casos, uma identificação – mesmo em relação aos personagens incomuns ou bizarros”.
A metalinguagem não é algo novo na filmografia de Almodóvar, que já havia abordado o próprio processo criativo (e suas dores) por meio dos protagonistas de “Abraços Partidos” (2009) e, sobretudo, de “Dor e Glória” (2019), no qual Antonio Banderas (indicado ao Oscar) vive seu alter ego Salvador Mallo, um diretor de cinema que fez muito sucesso no passado mas que agora passa por uma crise.
Com “Natal Amargo”, mais um personagem se junta à galeria almodovariana de artistas em crise criativa: Raúl (papel de Leonardo Sbaraglia, de “Relatos Selvagens”), cineasta veterano que, sem ideias, se apropria do sofrimento dos outros para criar seu novo roteiro. Em paralelo, o filme mostra a materialização da história que vai sendo escrita por ele, até que as fronteiras entre realidade e ficção se confundem.

Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano, “Natal Amargo” é baseado em uma das histórias de “O Último Sonho“, coletânea de contos escritos por Almodóvar abordando diversos períodos de sua vida, incluindo a perda da mãe. No livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2024, o diretor, produtor e roteirista espanhol exerce seu talento na autoficção, ou seja, a ficcionalização de fatos de sua vida ou das próprias memórias.
O poeta Ferreira Gullar afirmava que “a arte existe porque a vida não basta”, apontando que a criatividade nos tira das limitações da rotina. Em “Natal Amargo”, Almodóvar revela o quanto a criação pode impactar a vida real, e vice-versa. Essa estrutura metalinguística, do “filme dentro do filme”, revela mais uma vez um artista que se expõe por inteiro, revelando por meio da ficção algumas de suas feridas, obsessões e preocupações. Com a exuberância visual, grandes atuações e as emoções transbordando características de seu cinema.
Pesquisa e texto: Eduardo Lucena

