Mês: março 2021

Resenha da semana: “Rosa e Momo” (La Vita Davanti a Sé)

Resenha da semana: “Rosa e Momo” (La Vita Davanti a Sé)

Parte 1
Parte 2
Parte 3

Confira nossa opinião do filme sob a ótica do departamento de maquiagem e caracterização.

O filme “Rosa e Momo” concorre ao Oscar de melhor canção original (música maravilhosa de Laura Pausini, diga-se de passagem), mas já levou 11 prêmios e teve mais de 30 indicações. A história é baseada no livro de Romain Gary. Está disponível na Netflix.

Tomei a decisão de assistir ao filme sem muitas pretensões. O pôster já diz muitas coisas: Uma amizade improvável entre uma idosa e um menino, e imaginei que tratava-se “somente” (?) disso.

Mas vamos lá… quem me acompanha aqui sabe que defendo a ideia de fazer as resenhas enaltecendo a obra e não pra “meter o pau”. Críticos com esse viés, existem aos montes, e eu nem tenho repertório suficiente para isso (para julgar, no mínimo, o crítico deve ter um conhecimento excepcional), acho chato e principalmente: Trabalho em produções e sei o quanto é árduo materializar uma obra. Um filme é uma arte contínua e orgânica. Uma cena pode ser uma obra prima e outra ter algumas falhas, então qualquer crítica generalista pode ser vaga. Tem aquela premissa do “A beleza está nos olhos de quem vê…”. Sem contar o nosso humor no dia em que assistimos ao filme. (Eu mesma já odiei um filme e amei num outro momento, por conta do meu “mood” .

Confira o trailer oficial legendado.

Bom, vamos à história do filme. Rosa é uma sobrevivente do holocausto e ex-prostituta, que se aposentou e passou a cuidar de crianças de outras prostitutas para se manter.

Momo é Moahamed, um menino de 12 anos, senegalês que perdeu a mãe e vive sob a tutela do Dr. Cohen, amigo de Rosa. Ele é comandado por um traficante a vender drogas e também comete alguns furtos. Por coincidência, ele rouba Rosa e é descoberto: Tem que pedir desculpas para a amiga do seu tutor, que, de quebra, pede às Rosa que fique por um tempo com ele.

Eu adoro a forma como eles se peitam, a atuação é muito boa. Chega a ter uma pitada de comédia (apesar da triste realidade de ambos). O fato de um não dever nada para o outro, mas terem que se aturar faz com que o espectador acredite que seria impossível eles passarem a ter uma amizade. É aí que a mágica acontece. Não é piegas, não é clichê. Em uma entrevista que assisti com Sofia Loren o entrevistador fala:

“THERE IS A PROCESS OF BOTH NOT WANTING TO BE TOGETHER, NEVER COMES A BIG MOMENT WHERE THEY HAVE A HOLLYWOOD STYLE OF RECONCILIATION, AND TURNOVER, ITS SUCH A SLOW GRADUAL THING.”

Ou seja, a relação deles não tem aquele ponto de virada, aquela coisa que, do nada, eles passam a se amar. Não, é algo sutil, real. E por ser real, faz a gente ir entendendo o lado de cada um e se identificando pela história. Cria empatia. É poético. É belo.

O RETORNO DE SOPHIA ÀS TELAS, A DIREÇÃO DO FILHO E A RELAÇÃO COM IBRAHUMA GUEYE

Sofia Loren estava há 10 anos sem fazer um filme. E confessa que lutou por esse papel por acreditar que ele havia sido feito pra ela. O diretor, Eduardo Ponti, é seu filho. Tem várias entrevistas com eles no youtube e é uma graça vê-los dividindo com o público como funciona a relação deles no set. Ela garante que ele manda em tudo e ela só obedece. E em todas as entrevistas é possível ver o brilho no olhar dos dois de admiração um pelo outro. Ela tem o maior orgulho do filho e, sendo um ícone do cinema, é legal ver a humildade dela e vâ-la ali cumprindo também o  papel de mãe orgulhosa. É fofo!

Uma entrevista peculiar me chamou a atenção, pois é o filho que a entrevista e eles falam sobre a infância pobre da mãe. Não era só uma entrevista, parecia uma conversa de família, onde ele levanta questões sobre suas origens e a história da mãe, avó, etc. É um diálogo muito rico sobre família, gerações, ancestralidade.

E nesse momento que ela divide conosco o fato de se identificar muito com as histórias dos personagens, porque, de fato, ela viveu a pobreza, foi morar sozinha com 15 anos, e ela trouxe essa emoção e empatia com a história de Momo.

Momo não é ator até então, imagina a honra de estrear atuando com ninguém menos que Sofia Loren??? Eu fico me perguntando, será que ele tem noção do tamanho disso? E ela ainda fala que o admira como ator. Isso ficará na história dele para sempre, ela fala que, se ele se dedicar, vai longe. Que registro ele tem pra vida, não?

Para quebrar o gelo, a produção teve a ideia de coloca-los hospedados na mesma casa, acordarem e dormirem juntos para irem se habituando um com o outro. Então, a amizade foi realmente sendo construída aos poucos. Eu imagino que isso deve ter contribuído muito para passar essa realidade para nós, que estamos assistindo.

MAQUIAGEM E CARACTERIZAÇÃO

Como vocês sabem o intuito aqui é discutirmos sobre a maquiagem e caracterização dos filmes. Eu sempre estudo muito, pesquiso, busco referencias, para trazer informações e curiosidades, mas confesso que, para este filme, foi bem difícil. Pouco se fala sobre o processo. Então, eu fui “pescar” informações e estou trazendo muito mais percepções e indagações do que curiosidades sobre os bastidores. Até tive que recorrer à ajuda da minha tia que mora na Itália e está me dando aula de italiano (obrigada TiLu!). Se alguém aí souber de mais detalhes do que eu, peço que divida com a gente! Faça um comentário ou mande um email para maquiagemnocinema@gmail.com

O que chamou minha atenção foram os olhos delineados e os cílios postiços que ela usa na vida real. Sim, a aparência desses detalhes é um tanto estranha, mas eu consigo entender (talvez a importância da história de Sophia me faça compreender, sem preconceitos como maquiadora). É exagerado, eu sei. Mas, pensem… ela tem 86 anos. E foi um ícone de beleza e moda. Eu acredito que seja um símbolo de sua vaidade, que a maquiadora respeita e que, pelo menos nesse filme, não vejo problema nenhum. Eu acho até que combinou com a personagem. Nós, caracterizadores, sabemos que nada é por acaso. Imagino que isso tenha sido muito bem discutido (afinal, estamos falando de uma maquiadora com uma carreira brilhante – Frederique Foglia – que foi “body make-up coordinator) em Apocalypto e assinou a maquiagem em Lucy).

(Um parênteses aqui:)

(Eu, como assistente fiz uma campanha inspirada em Apocalypto (deixo o link na publicação em nosso portal: maquiagemnocinema.com) onde a Carla Carrasco foi a responsável pela maquiageme a Gi Moretto foi a figurinista. Tivemos apenas um recorte de como é caracterizar aborígenes e já foi tão complexo! Imagina fazer esse filme, eu nem consigo imaginar!!!)

Voltando…

Eu adoro a cena do terraço, onde ela está em transe e a chuva cai sob seus olhos. Ela não pisca (depois descobri que foi um pedido do diretor/filho que ela achou que não conseguiria atender), e ficou lindo. Ela mesma fala sobre ter considerado esta uma das cenas mais fortes.

Outros elementos da maquiagem que me chamaram a atenção são:

– A tatuagem dela na pele flácida e enrugada, ficou perfeita! Sabemos que isso é um trabalho de makeup fx e eu tiro o chapéu. E fico feliz com a importância da cena, em um close fica estabelecido que ela foi uma vítima do holocausto.  

– O machucado e suor de Momo.

– A peruca dela, despenteada com nuances grisalhos, combina muito com a personagem.

CURIOSIDADES SOBRE SOPHIA

Ela conta que ralou muito como figurante até começar a ganhar papéis como coadjuvante e então ganhar seu lugar como uma das atrizes mais importantes do mundo. Ela relata sua experiência como figurante em “Quo Vadis” (com Elizabeth Taylor).

Detalhe para a cena da dança ao som de Elza Soares. Ah, gente, eu amei. Ela e o filho contam como a cena foi natural, a maneira como eça vai se soltando aos poucos e termina curtindo o momento. Dá vontade de dançar junto. E ele conta que Sofia ama música brasileira e que sabia que essa cena ia ser divertida por isso.

Apesar de ser considerada uma das mais importantes atrizes do mundo, ela afirma que o filme que mais a marcou foi este.

Outro relato que me emocionou: Ela diz que o segredo para o sucesso das atuações foi ela se apoiar em sua própria idade. As dificuldades, fraquezas e belezas de uma vida aos 86 anos. Eu me emocionei e e esse já é um forte argumento para você assistir ao filme!

Confira a música que concorre ao Oscar (veja até o final, Sophia aparece!)
A Transformação de Glenn Close e Amy Adams para Hillbilly Ellegy

A Transformação de Glenn Close e Amy Adams para Hillbilly Ellegy

No último domingo aconteceu o “Critics Choice Wards” e vibramos pela premiação de “A Voz Suprema do Blues” por Melhor Maquiagem e Cabelo. Não à toa fizemos um video poucos dias antes, pois nos surpreendemos com a entrevista da equipe de caracterização concedida para a Deadline, contando detalhes e curiosidades. E também não nos surpreendeu o prêmio de melhor Figurino para Ann Roth que foi uma super parceria da equipe (assistam no último vídeo, onde conto tudinho!).


Clique acima para conferir o vídeo onde falamos do processo de transformação de Viola Davis na mãe do blues.

Como já demos créditos suficientes à  “Ma Rainey´s Black Bottom”, mesmo antes de ter sido contemplado, nesta semana resolvemos falar sobre outro título, que consideramos não ter tido o destaque que merecia: Hillbilly Ellegy (Era Uma Vez um Sonho), apesar de também ter sido indicado à Melhor Maquiagem no Critics Choice.

Indicações:

Critics Choice Award

Melhor Atriz Coadjuvante: Glenn Close

Prêmio do Sindicato dos Atores

Melhor Atriz Principal: Amy Adams

Melhor Atriz Coadjuvante: Glenn Close

Prêmio Globo de Ouro

Melhor Atriz Coadjuvante em Cinema: Glenn Close

Critics’ Choice Award

Melhor Maquiagem

Prêmio BAFTA de Cinema

Melhor Maquiagem e Cabelo

Só de ver o trailer do filme já desperta a curiosidade: O que houve com Amy Adams que está com aquela cara de sofrida? E Glenn Close envelheceu a essa ponto e não percebemos? Mesmo nós, maquiadores, acabamos deixando nos levar por esse julgamento inconsciente até nos lembrarmos que essa mágica é fruto de nosso trabalho!

O filme, cujo título em tradução livre seria “Elegia caipira”, tem uma atmosfera densa. É uma história baseada em fatos reais, roteiro adaptado do livro autobiográfico de JD Vance. Fala, de forma dramática, sobre a vida o interior, a pobreza, conflitos familiares, drogas, tudo sob o ponto de vista dele, um menino crescendo e lutando para mudar a sua realidade e de sua família.

Por ser uma história real, o desafio do departamento de maquiagem e cabelo era de ser fiel às referências – personagens que vivem até hoje – e eles atingiram o objetivo supreendentemente. É só conferir as fotos abaixo (não deixe de ver as cenas do making of abaixo onde alguns dos personagens reais se misturam com os atores em momento de descanso no set).

Confira agora a tradução da entrevista com o time de maquiagem disponível em inglês no site www.local706.org ( Make-up Artists & Hair Stylists Guild”:

Eryn Krueer Mekash (Department Head Make-up) conta que foi indicada por outras profissionais e que logo no começo já soube que Matthew Mungle (maquiador pessoal de Glenn Close) já havia iniciado a confecção de próteses e já haviam começado os testes. Disse que sabia que o passo era audacioso, já conhecia seu trabalho e tinha muito respeito por ele e trabalhar com o diretor Ron Howard seria a realização de um sonho.

Logo recebeu as referências dos personagens reais e de pronto pensou em aumentar o nariz da Amy, o que foi bem recebido pela atriz, que marcou o teste de pronto. Dave Anderson da AFX fez os transfers para serem usados em seu look de “Ohio anos 97”, somados ao envelhecimento e danos do sol refletindo em sua estética a vida sofrida.

Ela conta do privilégio de trabalhar com a responsável pelos cabelos (hair department head ) Patti Dehaney, que já havia levado o Oscar de Melhor Cabelo e Maquiagem com Amy por “Vice”. Ficou encantada com as perucas de Amy e Glenn e conta o quanto ficou extasiada por criarem esses personagens juntos, e uma coisa era fato: todos queriam que as atrizes ficassem muito diferentes de tudo o que já haviam feito no cinema até ali.

Assim que soube que cuidaria da maquiagem de ambas, se deu conta que precisava de uma assistente completa, que pudesse trabalhar com beleza, próteses, airbrush e que fosse muito boa em cobrir tatuagens.

Discutindo com o protético, chegaram ao nome de “Jamie Hess” para “key make-up”, pois ele já tinha trabalhado com Glen algumas vezes.

Ela relata sua preocupação com as tatuagens do ator principal. Para “Um cara grande com tatuagens grandes” precisaremos da ajuda do figurino com camisas de mangas longas e encarar cobrir diariamente as tattoos dos dedos, junto com outro profissional, Devin Morales, que já havia trabalhado com Haley Bennett (que interpreta a irmã do protagonista).

Foi necessário orquestrar um estudo de aplicação muito preciso para que o cronograma seguisse de forma organizada e que os outros atores não ficassem muito tempo esperando um ao outro.

Glenn começava diariamente pela colocação da peruca, para então começar a aplicação das próteses, e ela se dividia com Jamie, cada um aplicando uma orelha… Enquanto um pintava uma mão o outro aplicava a prótese do nariz, etc.

Em seguida chegava Amy para a aplicação da peruca com Patti, enquanto Eryn terminava a pintura com a maquiagem à base de álcool (h PPI Skin Illustrators e Greg Cannom’s Tuttle Creme) para garantir as marcas de idade, pintas, verrugas, rosácea, etc.

O nariz da Glenn era de silicone encapsulado e as orelhas de gelatina cênica. E assim iam alternando entre Glenn e Amy para a aplicação de próteses.

Dave Anderson ficou por conta das próteses de Amy a partir da cópia de um “life casting” que já existia, cedido porChris Gallaher”. Isso ajudou muito porque Amy não estava na cidade e era necessário já começar a confecção das mesmas sem a presença dela. Lembrando que tivemos dois momentos da personagem com caraterísticas diferentes. Uma em 1997 e outra em 2012 (ao assistir o filme é possível ver a mudança de tempo através da maquiagem dela).

Para a versão de 2012, houve a necessidade de intensificar os elementos de envelhecimento. Mais pintas, rugas, olheiras, vermelhidão e até envelhecimento das mãos. Ela usou também jogo de luz e sombra para engordá-la, principalmente no pescoço.

Já para Glenn, o aspecto de doente, fora aparentar o calor e a humidade do local.

Eryn fala que precisou contar com uma equipe de maquiadores locais que cumpriu talentosamente a missão.

Ela termina dizendo que Hillbilly Elegy foi um grande desafio e um dos projetos mais importantes em que ela trabalhou.

THE PROSTHETIC MAKE-UP  by Matthew Mungle | Prosthetic Make-up Designer for Ms. Close

Matthew conta que foi convidado pela própria Glenn e que ela participou na escolha das próteses e processos da maquiagem de efeitos (que bacana a atriz conhecer tão a fundo o nosso trabalho. O cinema só tem a ganhar com essa troca de experiências!).

Inicialmente ela achava que apenas uma prótese da ponta nariz seria suficiente. Mas consegui convencê-la, após algumas pesquisas, de fazermos o nariz inteiro e as orelhas. Eu já tinha seu “face casting” de quando fizemos o longa “Albert Nobbs”. Ela participou dando feedbacks, inclusive, das esculturas.

(Para quem não sabe o que é “face casting” e o que tem as “esculturas” a ver com maquiagem, é só conferir os nossos vídeos anteriores, em que entrevistamos a maquiadora realista Mari Figueiredo (bate-papo com ela abaixo) e o protético Marcio AMP.

A Mari dá vários cursos (eu mesma já fui sua aluna), acompanhe as redes sociais dela. Além disso, a Dri Lopes vai ensinar essas técnicas no curso que tá rolando com a  em nossa sede em SP).

Matthew conta que fez o teste na própria casa da Glenn em NY e, por sorte, o diretor mora perto dela e conseguiu acompanhar. Todos ficaram extasiados com o resultado.

Mesmo tendo o life casting, achei necessário realizar melhorias então resolvi tirar um novo molde das orelhas e nariz, especificamente. Uma curiosidade é que, ao fazer o casting do nariz, resolvemos deixa-la respirando pela boca para que tivéssemos o molde perfeito das narinas (isso que é atriz, hein????)

Depois disso é que soube a respeito da contratação da chefe do departamento Eryn Krueger e fiquei feliz que as próteses seriam aplicadas com precisão e o cuidado que precisava, foi um alivio!

Para conferir a entrevista completa em inglês (que está super legal, extremamente detalhada em técnicas, dicas e produtos usados), acesse: The Making of Hillbilly Elegy – Local 706